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Data: 23-02-2010
A Filosofia hoje - Pe. Adilson J. Colombi
A Filosofia hoje

Com o objetivo de motivar as atividades no inicio do ano letivo de 2010, a serviço do ensino, pesquisa e extensão, P. Adilson J. Colombi, professor e doutor em Filosofia, traz a reflexão a respeito da importância do estudo da Filosofia para os dias atuais. 

Saudações...

Vou usar da mesma simplicidade de postura e linguagem que alguns de vocês já se habituaram a ver e ouvir, nos semestres, que estive com vocês em sala de aula.
Deixo, de início, uma palavra amiga de um irmão mais velho. Felizes de vocês que escolheram este curso superior de Filosofia. Com efeito, vocês estão se inserindo dentro de movimento que manifesta uma tendência mundial: a procura pela filosofia. Quem nos revela esta saudável notícia é a revista L’Express de Paris, França, como noticiou o jornal  -  O Estado de São Paulo – dia 5 de novembro de 2006, com o título -  Pílulas de sabedoria para uma vida feliz. Em sua matéria de capa, a revista  “L’Express tenta entender porque nunca houve como agora uma procura tão grande de filosofia”. E não é só na Europa, li em outra ocasião que a USP e PUC de São Paulo, nunca tiveram tantos candidatos ao curso de Filosofia, tentando ingressar pelo vestibular. Coisa inédita. Como vocês estão matriculados em nosso curso de Filosofia, repito, felizes de vocês que estão se aventurando neste árduo, mas belo caminho da Filosofia.
Por que será que está ocorrendo tal fenômeno? Não é fácil encontrar resposta plausível. Contudo, me aventuro a fazer a reflexão subseqüente.
Alguns de vocês que acompanharam tão bem as aulas de História da Filosofia Moderna e História da Filosofia Contemporânea, que tive a honra de ministrar, sabem que o século XIX e o século XX, não foram muito favoráveis à Filosofia. Menos ainda aqui no Brasil. Embora tenham produzido bons filósofos.
Todavia, quem se aventurava a fazer um curso de filosofia, fora da via presbiteral, era candidato certo ao desemprego. A Filosofia, com os avanços científicos e tecnológicos, aliados ao antiintelectualismo social reinante, era tida como a mais demodée das disciplinas. Quem estaria interessado em estudar Aristóteles, Santo Tomás, Descartes, Kant, Kirkegaard, Maritain, Mounier, Heidegger... Ninguém ou quase ninguém. A não ser alguns que eram vistos e tidos como um pouco ou bastante excêntricos.
Mas, o século XXI desperta para a Filosofia. Sim, nestes tempos da Internet, dos Blogs, dos Orkuts, do Twitters, da “luta quase feroz pela vida”, num ambiente tomado pelo consumo e pelo bem-estar, ressurge a Filosofia, suscitando um inesperado interesse nas pessoas.
Até os meios de comunicação social já despertaram para o fenômeno. Tanto na Europa, como no Brasil, livros de filosofia são editados, cursos particulares de filosofia e, sobretudo, a TV veicula programas, popularizando a Filosofia, em forma de pílulas de sabedoria ou de autoajuda. Alguém pode dizer, mas é uma filosofia barata, fajuta. Em todo caso, não deixa de ser um apelo à reflexão e por isso continua sendo Filosofia. É a Filosofia chegando, em última análise, ao povo, ainda que bastante precária.
Seria fácil ver em tudo isto, um empobrecimento talvez até aviltamento da Filosofia. Creio que, como cultores da reflexão e da investigação filosóficas, não me parece o melhor caminho fazer este julgamento.
Talvez seja mais honesto e até necessário detectar as razões, os motivos que suscitaram tal fenômeno da procura pela Filosofia. Parece-me que uma razão se impõe quase naturalmente. A sociedade e a cultura, alicerçadas na Ciência e na Técnica, apesar dos esplendorosos progressos indiscutíveis, não trouxeram a felicidade individual e social prometida, principalmente, pelo Iluminismo, Positivismo e seus descendentes. O ser humano contemporâneo consome mais, vive mais, sabe mais, está mais bem informado, está rodeado de todas as comodidades, facilidades, vantagens que seus avós nem sonhavam. Nem por isso é mais feliz. E por que não é? E por que deveria ser feliz?
Hoje, a felicidade se tornou mais que uma aspiração. Tornou-se uma obrigação, quase um dever pessoal, cobrado com insistência, na família e na sociedade. É normal que as pessoas a procurem onde e como podem. No consumo? Não, porque o apelo consumista é insaciável, numa aspiral infinita. Na religião? Em parte, porque a religião conforta, promete, ampara, anima para aqueles que a assumem como verdade e estilo de vida. Mas, num ambiente laico e descrente contemporâneo, as pessoas almejam a felicidade a curto prazo, aqui neste mundo e agora, se possível. Querem desfrutá-la, saboreá-la logo.
Para estas pessoas, talvez, resta a velha sabedoria que se ocupa de vários temas, como a possibilidade do conhecimento, a busca dos fundamentos da inteligibilidade da realidade e as questões da Ética e da Política, mas não foge também da busca da felicidade.
Parece-me que a grande questão de fundo desta busca inesperada da Filosofia é a procura, quase desesperada de um sentido da vida e razões para viver. Estamos mergulhados numa cultura que fornece hiperinformação e consumo impressionantes (pelo menos para quem pode). Agora, o ser humano tem fome de sentido. E busca na Filosofia a superação desta falta de sentido. E busca na Filosofia saciar-se um pouco. Procura, portanto, na Filosofia a superação desta carência de sentido de vida que a Ciência e a Técnica não lhe deram.
Aqui, caros estudantes, acredito que entra a missão de vocês, como cultores da Filosofia e construtores da cultura, auxiliar as pessoas a refletir para encontrar o sentido da vida.
Para assim proceder, creio, seja salutar sobrevoar sobre os tempos modernos, sem desprezá-los, aterrissar na Antiga Grécia e passar, com atenção, pela Europa medieval. Para quê? Para beber em fontes metafísicas  que oferecem princípios sólidos, necessários para superar uma razão analítico-instrumental que tudo relativiza. Superar, portanto, aquilo que o então cardeal Ratzinger, hoje papa Bento XVI, denominou de uma maneira bem apropriada a ditadura do relativismo.
Neste mundo animado por esta razão instrumental, realmente, já não há mais seres humanos, homens e mulheres, mas apenas máquinas de produção. Já não há mais animais, mas apenas fábricas de carne, ovos, leite e pele. Já não mais flores, mas apenas coisas que dão lucro para a voragem interminável do consumidor. Tudo é visto sob a ótica de objetos de posse, venda e troca. Até os dons e qualidades humanas mais nobres, como a sexualidade, o afeto, o amor, a fé... Num tal mundo já não existe senão somente um complexo de relações funcionais que despersonalizam e escravizam.
A missão de vocês será, portanto, auxiliar as pessoas a encontrar um sentido para a vida. Para isso, porém, é necessário também que se sintam gente, pessoas humanas. E façam com que, na medida do possível, todos se sintam gente, pessoas humanas, conscientes e livres. Para isto ocorrer, não bastam sólidos princípios fundantes que possibilitam a inteligibilidade da realidade. Necessária se faz uma reflexão sobre o ser humano, visto como pessoa. Um ser humano aberto ao mundo que o cerca, ao outro e ao Transcendente. Ter consciência clara que a pessoa é centro e eixo da sociedade e da cultura. Sem esta centralidade é impossível encontrar o caminho para a felicidade pessoal e social. Ninguém é feliz, sentindo-se e percebendo-se como objeto, coisa, número ou só produzindo e consumindo. O ser humano será feliz, quando vive como pessoa. Tarefa árdua, porque é uma conquista permanente, jamais definitiva. O ser humano, vivendo como pessoa encontra o sentido da vida e razões para viver. Isto é fazer filosofia. Façam e ajudem os outros a fazer esta Filosofia.
Termino felicitando-os novamente, pela escolha que fizeram, mesmo que para alguns não tenha sido tão livre (pois, é uma exigência no percurso em preparação ao ministério presbiteral). Tenham todos um bom e profícuo ano letivo, cheio de realizações e de progressos significativos, no caminho da reflexão e investigação filosóficas. Caminhem pela vida, construindo a paz! Obrigado!

Brusque, 17 de fevereiro de 2010.
Fonte:
 
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